Radicalismo e oportunismo
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Reunião do soviete de Petrogrado
A discussão destes dois termos levar-nos-ia muito longe e obrigaria, de certeza, à elaboração de um ensaio completo. Ficamo-nos por um objetivo muito mais modesto. Além disso, Marx, Engels e Lenine muito disseram sobre a matéria, uma vez que a sua vida foi um constante combate contra o oportunismo.
A palavra «radicalismo» desperta na esmagadora maioria das pessoas, mesmo dos comunistas e dos que julgam sê-lo, um sentimento de rejeição. «Radical» é algo que não se deve ser, se se quer ser comunista pelas normas do catecismo vigente. O radicalismo assusta as pessoas, não fica bem. O que poderão dizer as pessoas de alguém radical? Que não tem equilíbrio, que não tem bom senso, que semeia a divisão e a discórdia, que ameaça a paz social. Digamos as coisas pelos seus nomes: «radical» é alguém que inquieta o sossego e o bom viver do pequeno-burguês que, se não está bem na vida, também não está totalmente mal, vai-se safando pelos “intervalos da chuva”. Há uma imensa massa de proletários que não consegue pagar a renda a horas nem a fatura da eletricidade, que não tem onde deixar os filhos para ir trabalhar, que não pode dar à família carne ou peixe às refeições a partir do meio do mês, que não tem dinheiro para pagar os livros da escola dos filhos, etc., etc.; portanto, está bem pior que ele.
Um bom comunista deve ser bem comportado, deve ser bem visto pela “sociedade” (onde se incluem os burgueses), não deve dar muito nas vistas, deve ser pacato, deve promover a unidade e a concórdia (com os bispos também), deve saber “construir pontes”, deve comportar-se respeitando as boas normas sociais (pequeno-burguesas), etc., etc., e, se em casa bater na mulher, está tudo bem desde que não dê escândalo e os vizinhos não saibam.
Um “radical” é um esquerdista, coisa que cai bastante mal e prejudica a imagem. Lenine escreveu um livro muito importante e valioso, O esquerdismo, doença infantil do comunismo e Álvaro Cunhal também um outro, tendo por referência as circunstâncias históricas portuguesas em que o esquerdismo se manifestava – naquela altura sobretudo no maoísmo, mas muito para além dele - , Radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”. Pois estas obras são ministradas em “cursos”, que, deslocando as questões do contexto histórico a que pertencem e estabelecendo paralelismos intelectualmente desonestos, põem o militante comunista em guarda contra os perigosos esquerdistas e radicais que existirão dentro do PCP e os educam a serem bons comunistas do “centro”.
Pois sobre radicalismo diz Marx, por exemplo, o seguinte:
A teoria é capaz de penetrar as massas desde que faz demonstrações ad hominem [voltadas para o ser humano] e faz demonstrações ad hominem desde que se torna radical. Ser radical, é tomar as coisas pela raiz. [sublinhado nosso]
E diz Lenine:
“Quanto mais frequentemente temos ocasião de observar no nosso tempo como o movimento operário de diferentes países sofre com o oportunismo em consequência da estagnação e da putrefação da burguesia, em consequência da absorção da atenção dos dirigentes operários pelas ninharias do dia [sublinhado nosso] etc., mais precioso é o riquíssimo material da correspondência [entre Marx e Engels], que mostra a profundíssima compreensão dos objetivos transformadores radicais do proletariado e a definição invulgarmente flexível das tarefas táticas do momento do ponto de vista desses objetivos revolucionários e sem a mínima concessão ao oportunismo ou à fraseologia revolucionária.” 2
Por certo, toda a gente já se deu conta de que na comunicação social que o capital domina, incluindo claramente a comunicação social pública, os funcionários do pensamento dominante falam constantemente em “extremismo”, “discurso de ódio”, e usam muitas outras expressões semelhantes, muitas vezes em contextos em que parecem substituir as palavras ‘fascismo’ ou ‘nazismo’. Qual é o conteúdo com que as massas dos destinatários destas mensagens preenchem as palavras ‘extremismo’ ou ‘discurso de ódio’? Em primeiro lugar pensam logo em desordem, caos, violência, ameaça à ordem vigente e com isto lhes é inculcado um sentimento de medo que leva à adoção de um comportamento de coibição.
Porém, as expressões ‘extremismos’ e ‘discurso de ódio’ são tão vagas (propositadamente polissémicas) para se aplicarem a outros contextos.Trabalhadores e massas oprimidas que se levantem em revolta contra a violência da exploração serão então apelidados de ‘extremistas’ e as suas palavras serão também um ‘discurso de ‘odeio’.
Poucos saberão que a moldagem das palavras, dos conceitos e dos respetivos conteúdos, a semântica do discurso político burguês, são produzidos pelos laboratórios sociais do capital para influenciarem o comportamento das massas. Apresentamos os exemplos comezinhos e consabidos quanto a vocábulos: patrão (explorador) é empregador, trabalhador (explorado) é colaborador, espionagem é inteligência, fascismo é populismo; no plano dos conceitos mais elaborados (que em si já contêm uma narrativa explicativa prévia, anteriormente inculcada), temos as armas de destruição maciça do Iraque, a história mal contada do ataque às torres gémeas, o Osama ben Laden e o seu gangue de talibãs, o terrorismo islâmico, o perigo russo (o atual), a democracia ocidental, o totalitarismo, os “regimes” - os “regimes” são os governos de quem o capital não gosta, ex: regime cubano (a França, a Alemanha, os EUA não têm “regimes”), etc. Que não se duvide que estes laboratórios existem, não só no Pentágono como em universidades.
Este trabalho de manipulação das mentes ao nível de massas foi iniciado pela CIA logo após a o fim da II Guerra Mundial e o início da guerra fria, voltado fundamentalmente contra o socialismo. À guerra psicológica assim desenvolvida há que acrescentar que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, afirmação que já era verdadeira desde que a sociedade se dividiu em classes.
Tal trabalho psicológico tem em vista sobretudo esconder a realidade da exploração capitalista, atenuar ou coibir a luta de classes, estimular a conciliação de classes, promover o conformismo com a ordem exploradora vigente, controlar a luta de massas impedindo-a de se elevar a patamares que os órgãos repressivos dos Estados não consigam controlar, justificar as guerras e os crimes do capitalismo e do imperialismo, perseguir as organizações dos trabalhadores, demonizar todo o pensamento libertador que aponta o caminho do socialismo que liberta o mundo da exploração e da barbárie capitalista.
Mas o radicalismo na boca dos políticos burgueses ainda tem mais que se lhe diga. Utilizemos o caso português com alguns exemplos um pouco ao acaso.
Disse Montenegro, por exemplo, que:
“Num dia onde os extremos erguem as suas bandeiras, nós somos o elemento de moderação” 3 e que
“os órgãos de comunicação social carregam uma “grande responsabilidade” no combate “ao extremismo, ao populismo excessivo, à desinformação”, tecendo duras críticas à postura daqueles que decidem ir “atrás ou alimentem agendas” radicalizadas 4 e ainda que "todos os extremos fazem mal à democracia"5.
E José Luís Carneiro que:
[os autarcas e dirigentes socialistas] “nunca se vão juntar a partidos extremistas” para alcançar ou manter o poder. [Alertou para] o "risco crescente" do populismo e da demagogia na Europa. [Defendeu que] a resposta dos democratas não deve ser ideológica, mas sim prática: “Devemos ter soluções concretas e comuns para resolver os problemas das pessoas (...). Só assim é possível travar populismos e extremismos”.6
À primeira vista parece que estas afirmações se dirigem ao Chega. No entanto, elas contêm uma armadilha. Referindo-se aparentemente aos fascitóides do Chega e fazendo uma profissão de fé na “democracia”, na “moderação” e na “concórdia” elas dirigem-se para mais além. Montenegro esconde que “agendas radicalizadas” são também, e sobretudo, as lutas dos trabalhadores, porque não se coíbe de fazer alianças com o Chega. O Secretário-geral do PS apela à satisfação mínima das reivindicações das massas, para que o capitalismo possa prosseguir sossegadamente num clima de ‘paz social’ que escamoteia a violência da exploração.
Os “extremismos” no plural obrigam a considerar que existem pelo menos dois extremismos: se um é o ‘populismo’, eufemismo para ‘fascismo’, o outro é a luta de classe dos trabalhadores, a ideologia socialista pela libertação da exploração capitalista, as organizações políticas e sindicais do proletariado.
Portanto, quando da boca destes defensores do capital os trabalhadores ouvirem as expressões
“discurso de ódio” e “extremismos” as devem considerar em primeiro lugar uma ameaça, porque não é o fascismo que a burguesia vai reprimir. No momento em que as lutas de massas começarem justamente a radicalizar-se pela pressão das políticas cruéis do capitalismo, o “discurso de ódio” e o “extremismo” vão-se aplicar inevitavelmente a elas para justificar a repressão de que vão ser alvo. O terreno já está preparado para a rejeição dos “extremismos” e dos “discursos de ódio”.
A socialdemocracia tem modos sofisticados. Sem deixar de falar em extremismos no plural, o que equivale à aceitação de que a “extrema-esquerda” se inclui na mixórdia, sem dizer claramente que as suas palavras se dirigem contra o fascismo, apela sem cessar ao “centrismo” como forma de promover a conciliação de classes e procurar inibir a luta de massas, maxime criminalizar ou diabolizar a luta pela revolução socialista. Tal posicionamento mostra ao mesmo tempo, o medo que a burguesia tem de que tal aconteça.
Vejamos alguns exemplos.
Já no final do seu mandato, Rebelo se Sousa declarava:
"A verdadeira democracia está na moderação, está nos moderados. Não está, por definição, na radicalização." Apelou ainda a que a razão prevalecesse sobre a emoção no ecossistema partidário.7
Na campanha presidencial de Seguro, um órgão de comunicação social citava o candidato:
O candidato presidencial António José Seguro comprometeu-se a combater com firmeza "os extremismos", que classificou como "venenos que precisam de ser combatidos", e vai promover no próximo dia 15 uma convenção para afirmar a democracia. 8
Outros órgãos de comunicação social noticiavam:
[António José Seguro] Apelou explicitamente às "palavras do meio", definindo-as como aquelas que "expressam mais tolerância do que exclusão e mais disponibilidade do que afastamento". Sublinhou que estas palavras servem como "o antídoto contra a polarização" 9.
Acho [A. J. Seguro] que o país percebeu as nossas diferenças. Os portugueses não são extremistas, os portugueses não são divisionistas e nós vivemos num mundo onde há muitas incertezas, onde há muitas divisões, não precisamos de mais divisões no nosso país", disse hoje António José Seguro aos jornalistas, após um almoço com apoiantes do setor da Cultura no Beato, em Lisboa. 10
Procurando tirar consequências destas afirmações podemos dizer que: a) na boca dos políticos burgueses, a abominação do “extremismo” se dirige muito mais aos trabalhadores do que ao fascismo ; b) que a burguesia e os seus funcionários - os políticos - temem que a luta de massas se agudize sem controlo e pretendem evitá-la; c) que os trabalhadores não podem abrir mão da defesa dos seus interesses em nome de um centrismo que seria bom para toda a gente… exceto para os próprios trabalhadores.
Diz o atual presidente da República que o “extremismo é um veneno que é preciso combater”. Sendo que, na sua opinião, obviamente, o extremismo tem dois polos, haveria que combater quer o fascismo quer o comunismo, embora ardilosamente omita os dois termos. Mas que ninguém tenha dúvidas de que a socialdemocracia, ao longo da história, já mostrou que muito mais depressa combate o segundo do que o primeiro. Aliás já formou alianças várias com ele. Estas expressões em pleno século XXI mostram que o slogan made in CIA segundo o qual comunismo é igual a fascismo continua a faturar como faturava quando ainda existia o bloco socialista.
A. José Seguro tem muita razão em dizer que no nosso país há muitas divisões. Pois há. Há a divisão entre as reformas e os salários de miséria e os lucros obscenos da banca; a divisão entre os que podem aceder a hospitais privados e os que ficam na fila à espera de uma cirurgia oncológica; há a divisão entre os pequenos agricultores e as grandes superfícies que lhes pagam as mercadorias abaixo do custo de produção; há a divisão entre as mansões de Cascais e as moradias de luxo da Comporta e os bairros de tijolo e chapa da Brandoa; há a divisão entre os que podem pagar a casas de repouso luxuosas e os que não saem dos hospitais por não terem para onde ir; há a divisão entre os que sobrevivem com o suor do seu trabalho e os corruptos sempre à espera da comissãozinha do negócio com o Estado (vide questões em curso com o Primeiro Ministro e o Ministro da Defesa que são apenas a ponta do iceberg desde o poder central até ao poder local ); há a divisão entre um governo que vai comprar fragatas a Itália no valor de quase cinco mil milhões de euros e não tem dinheiro para climatizar as escolas ou fazer novos hospitais onde fazem falta.
Em suma, há uma grande divisão entre os que possuem o capital e comandam a estrutura do Estado, e os proletários que não dispõem senão da sua força de trabalho para vender a preços cada vez mais baixos e como arma dispõem apenas da sua organização.
Pois é esta divisão que tem de ser exposta, ficar à vista de todos para denúncia do capitalismo, da sua perversidade, para provocar a revolta contra o estado de coisas vigente, para que as suas vítimas se possam libertar. Nada se pode esconder nem amenizar, não há conciliação possível.
Marcelo Rebelo de Sousa também tem muita razão quando diz que «A verdadeira democracia está na moderação, está nos moderados». É que para ele a democracia é a que beneficia aqueles cujo poder de fazer o que querem não é contestado. Só que a esmagadora maioria não tem acesso a essa democracia porque é muito cara. É para esses que se dirige o apelo da moderação: aguentar e cara alegre! Não protestem muito ou, se protestarem, façam-no com boa educação e “sentido de responsabilidade”. Querem fazer greves? Está bem, só estão a demonstrar que vivemos numa verdadeira democracia, mas … baixinho, por favor, não paralisem os serviços públicos, isso é deveras incomodativo. O governo do dr. Montenegro vai dar-vos uma ajudinha com uma legislação muito democrática para as greves não maçarem as pessoas. E, já agora, para os sindicatos não se abeirarem dos trabalhadores porque as perturbações na produção incomodam muito os empreendedores, esses bravos portugueses.
E viva a democracia e o votinho, mesmo que mais de metade dos portugueses não queira saber do voto para nada e a esmagadora maioria dos outros vá votar em quem não deve.
Oportunismo
No dicionário político do Arquivo marxista na internet (MIA), secção em português, pode ler-se a seguinte entrada:
«Oportunismo
Política de conciliação de classes, de cooperação do proletariado com a burguesia. Pela sua natureza social o oportunismo é uma manifestação da ideologia e da política pequeno-burguesas.
O Oportunismo de Direita é um conjunto de opiniões teóricas e orientações táticas que se baseiam na submissão ao movimento operário espontâneo, na ideia "reformista" da transição gradual do capitalismo para socialismo e na renúncia à revolução socialista e à conquista do poder pela classe operária. Reflete os estados de ânimos da cúpula aburguesada da classe trabalhadora, a aristocracia operária, e os setores médios da sociedade capitalista e é típico dos partidos socialistas de direita. No movimento comunista, o Oportunismo de direita manifesta-se em alguns períodos como "revisionismo de direita".
O "Oportunismo de Esquerda" é uma mescla de proposições ultra-revolucionárias e aventureiras que se apoiam nas ideias voluntaristas sobre a omnipotência da "violência revolucionária". Reflete as vacilações no ânimo social dos pequenos proprietários que se arruínam e dos elementos incapazes de sustentar uma luta de classes firme e organizada. Não leva em conta as etapas de desenvolvimento social e empurra o movimento operário no caminho de aventuras políticas e sacrifícios sem sentido.
O Oportunismo de esquerda e de direita, apesar de todas as suas diferenças e aparente contradição, estão unidos pela hostilidade ao marxismo-leninismo.»11
Breve Dicionário Político – Editorial Progresso - Moscovo
Felizmente o oportunismo de esquerda não se manifesta hoje muito na realidade política portuguesa. Há por aí uns grupelhos trotskistas maioritariamente compostos por jovens estudantes (embora os seus verdadeiros chefes sejam já umas raposas velhas que há muito deixaram os bancos das universidades e passaram a catedráticos do anticomunismo), mas, em abono da verdade, diga-se que nenhum ultrapassa o radicalismo pequeno-burguês para atrair e enganar a juventude e afastá-la do caminho da luta pelo socialismo. Antigamente os esquerdistas eram os estrénuos defensores do maoísmo, mas hoje – as voltas que a vida dá! – os estrénuos defensores da China “socialista” são verdadeiramente oportunistas de direita, já que a China há muito deixou de ser socialista e o PCC comunista. E os esquerdistas de antigamente ou já morreram ou há muitos anos que se passaram para o PSD e o PS.
Há também por aí uma Joana d’Arc de lança em riste na defesa dos trabalhadores e lá os vai enganando com sindicalismo e trabalhando para a divisão criando uns sindicatos à sua maneira pequeno-burguesa social-democrata. Dá pelo nome de Raquel Varela.
Mas é pena que aqueles que deveriam ser a vanguarda revolucionária da classe operária, os radicais no verdadeiro sentido do termo, se tenham tornado oportunistas (políticos; veja-se definição supra do dicionário) fraquinhos, convencidos de que são marxistas-leninistas, muitos deles sem terem lido, mesmo na diagonal, e muito menos estudado, qualquer obra dos fundadores da ciência do socialismo.
Basta pegar na palavra de ordem que abre o editorial do «Avante!» nº 2748 de 30.07.2026: «Romper com a política de direita, por um outro rumo para o País» que é a palavra de ordem da atual tática do PCP e que reflete completamente o oportunismo da sua doutrina programática.
“Romper”… o que é? Rompe-se o vestuário, rompe-se os sapatos, as canalizações, as mangueiras… Convenhamos que não dá uma indicação muito clara à ação dos trabalhadores se é a eles que se dirige o apelo, coisa que também não é clara (também pode ser um apelo à pequena-burguesia, aos “democratas e patriotas”). De qualquer modo, isso também não está claro – quem deve executar a ação de “romper”. Outra questão ainda: como é que se “rompe”? Usando muitas vezes? Desgastando? Nã… pouco convincente.
E o que é a política de direita? Esta expressão talvez seja um pouco menos nebulosa, mas tem problemas. Se há política de direita então haverá política de esquerda, embora a palavra de ordem não a refira. E o que é a «política de esquerda»? É aumentar salários e pensões, construir habitação pública, etc.? Pode ser ser, mas como é que lá se chega? Diz o PCP que é através do rompimento, mas não diz como se rompe, nem onde… Quem o executa? Pensa o PCP ir para o poder? Como? Através do voto? Um pouco difícil, convenhamos. Ou pensa o PCP convencer o PS a abandonar a “política de direita” que o acusa de fazer e pô-lo a fazer uma “política de esquerda”? Bom, talvez... mas em 50 anos o PS nunca soube o que era isso, nem em aliança com o PCP na “geringonça”, pela qual, sossegando a luta de classes, este último pagou um alto preço e perdeu votos e respeitabilidade a troco de umas creches que ainda hoje não existem para quem precisa delas… problemático.
«Outro rumo para o país», proclama a palavra de ordem. Mas que rumo é esse? Lamentamos, mas não conseguimos acrescentar nada, porque geometricamente os rumos são infinitos e na física subatómica “rumo” é palavra que não faz sentido …
Mas nós podemos dizer: o PCP está no rumo do oportunismo político.
Não se pode dizer que o PCP se submete ao movimento operário espontâneo. O PCP dirige simplesmente a luta económica sem o objetivo de a aproveitar para a elevação da consciência política das massas trabalhadoras, levando-as à compreensão de que a luta reivindicativa – que pode resolver problemas imediatos – não basta; que, no capitalismo, aquilo que hoje se conquista se pode perder amanhã; não liga a luta por objetivos parciais à luta pelo objetivo estratégico do socialismo; não aproveita a luta sindical económica para que a massa trabalhadora chegue à compreensão da necessidade de abolir a exploração capitalista que resolverá então a maioria dos seus problemas.
A greve geral de janeiro deste ano teria sido um momento mais do que oportuno para abordar estes temas, porque uma lição os trabalhadores retiraram: à força do governo tem de se opor uma resistência mais poderosa: a da unidade e organização dos trabalhadores, como aconteceu. Porém, os trabalhadores não foram avisadas do perigo de novas avançadas, da necessidade de manterem o nível de prontidão para a continuação do combate. Não se usou a ocasião para falar do quadro do funcionamento do sistema capitalista, da inserção de Portugal no sistema imperialista, das razões das exigências da UE enquanto pilar do grande capital europeu, da avaliação da correlação de forças feita pelo inimigo de classe e das razões gerais para a burguesia exigir neste momento a tomada de medidas tão drásticas.
Exemplifique-se com a seguinte passagem do Editorial do «Avante!» nº 2728 de 30.07.2026:
É neste quadro que a luta dos trabalhadores e a sua ação reivindicativa assume papel relevante e em que se projeta em termos de confiança e possibilidades que a vitória dos trabalhadores contra o pacote laboral revelaram. Uma luta que tem de inscrever a exigência de aumento de salários e pensões, de combate ao aumento do custo de vida, de controlo de preços, de defesa dos serviços públicos.
Como se vê, o editorial do «Avante!» fica-se pela luta económica imediata e não lha dá o enquadramento político necessário.
O PCP não diz às massas trabalhadoras de que, com políticas de direita ou de esquerda, no sistema capitalista a exploração da força de trabalho continua. O PCP limita-se a querer reformar o capitalismo, torná-lo aceitável, não educa as massas para a luta pelo poder dos trabalhadores, abandonou a luta pelo socialismo. Continua preso à teoria das “etapas” dizendo no seu programa que antes do socialismo há-de antes passar-se por uma “democracia avançada”, utópica, anti-marxista-leninista, anticientífica, sem significado de classe, enganadora das massas. Mas nem a democracia avançada aparece muito nos documentos e discursos do PCP . Suspeitamos que o próprio tenha dúvidas do entusiasmo que esse conceito desperta nas massas proletárias. Agora fala num “novo rumo” que não se sabe qual é.
Proletariado, classe, capitalismo, exploração capitalista, revolução, ditadura do proletariado, socialismo, comunismo, internacionalismo proletário há muito deixaram de fazer parte da estratégia do PCP. E mesmo quando alguma destas palavras é escrita (e dizemos ‘escrita’ porque, por exemplo, não as ouvimos da boca de qualquer deputado no parlamento) por obrigação do respeito pelas aparências é oca, vazia de sentido, inconsequente.
Dizia Lenine:
Oportunismo significa sacrificar interesses fundamentais para obter vantagens temporárias e parciais. Essa é a essência da questão, se considerarmos a definição teórica de oportunismo. Muitas pessoas se extraviaram neste ponto 12.
Lenine, Discurso numa reunião de ativistas da organização de Moscovo do PCR(b), 06.12.1920
Mas toda a tática é tão frouxa, nela está tão ausente qualquer marca de classe, que nem vantagens temporárias se tem obtido, apenas perdas bastante duradouras. Só a greve geral conseguiu impor a retirada do pacote laboral, mas não sabemos até quando e de que forma o patronato voltará à carga.
É um facto que a ditadura do proletariado desapareceu do Programa do PCP em outubro de 1974, no seu VII Congresso, e que a “democracia avançada” apareceu no Programa do PCP em 1988, no seu XII Congresso. Mas que não haja dúvidas de que o caminho para o socialismo, que inevitavelmente superará a barbárie em que o capitalismo mergulhou a humanidade, vai colocar a revolução socialista como tarefa imediata, criadas as condições objetivas e subjetivas para que ela se verifique. Aqui deve entender-se a palavra ‘i-mediata’ no seu sentido literal, isto é, no sentido em que não existe qualquer etapa antes do socialismo. O caminho para o socialismo vai exigir um Estado proletário – ditadura do proletariado - e uma vanguarda revolucionária que dirigirá todo o processo de construção da sociedade sem classes, o processo completo da abolição das classes. E essa vanguarda tem de ser profundamente conhecedora do socialismo científico no qual se inclui toda a experiência histórica do movimento operário, do socialismo enquanto existiu e as razões pelas quais foi derrotado, para não se voltar a cometer os mesmos erros.
Isto é, sem dúvida, completamente radical. É este radicalismo revolucionário que o domínio ideológico pequeno-burguês no PCP estrangulou.
Notas
11https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/o/oportunismo.htm , ligeiramente editado para correção de erros e adaptação à variante portuguesa do português

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